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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Corrupção, doença do mundo



A Justiça sozinha não vai acabar com a corrupção
Germano Luders/Exame 


 Zingales: “Atuar em favor de algumas empresas é diferente de dar a todas oportunidades iguais”



São Paulo — O economista italiano Luigi Zingales, de 52 anos, construiu boa parte de sua carreira acadêmica nos Estados Unidos. Mas foram a infância e a juventude na Itália que ajudaram a moldar sua visão sobre o que chama de capitalismo de compadrio.

A referência de sua terra natal era de um modelo corrupto que beneficiava aqueles que estavam próximos ao poder e que tirava a competitividade da economia. Professor da Universidade de Chicago, Zingales é considerado um dos mais renomados estudiosos das relações perniciosas entre governos e o mundo corporativo.

Para ele, as recentes investigações anticorrupção no Brasil devem ajudar o país a aprimorar seu modelo de capitalismo — atualmente não muito diferente do italiano. Mas alerta que o combate à corrupção precisa ser feito em múltiplas frentes.

“A Justiça é importante, mas não resolve o problema sozinha. A desburocratização da economia é crucial nesse processo.” Em um evento recente no Instituto Fernand Braudel de Economia Mundial, em São Paulo, Zingales concedeu a entrevista a seguir.

Exame - Está em curso uma das maiores investigações contra a corrupção no Brasil, a Operação Lava-Jato. Qual deveria ser o legado desse tipo de iniciativa?
Zingales - Este é um momento crucial para aprimorar o capitalismo brasileiro. Estou impressionado com a efetividade e a independência dos procuradores brasileiros envolvidos nessa investigação. No entanto, temo que o processo possa ser paralisado em algum momento. Hoje, a população apoia os procuradores e os juízes, pois eles estão prendendo gente rica e poderosa.
Mas, em sociedades em que a corrupção é muito difusa, a questão é se essas investigações chegarão ao limite extremo, alcançando as pessoas comuns. Foi isso o que ocorreu na Itália, com a Operação Mãos Limpas nos anos 90. Infelizmente, lá o processo foi interrompido.

Exame - E por que não deu certo?
Zingales - À medida que as investigações da operação avançavam (mais de 6 000 pessoas foram investigadas e 800 acabaram presas), muitos italianos começaram a se sentir acuados. A economia também estava paralisada. Foi nesse momento que se popularizou a figura de Silvio Berlusconi, que desmantelou a operação quando chegou ao cargo de primeiro-ministro.

Exame - E como isso pode ser evitado?
Zingales - Minha percepção sobre o Brasil é que, assim como na Itália, todo mundo comete algum tipo de ilegalidade. Isso porque é muito difícil se manter legal num sistema extremamente burocrático.
Haverá um momento em que vai se disseminar a ideia de que se todo mundo é culpado, logo, ninguém é culpado. E esse é um momento importante que não chegou ainda ao Brasil, mas vai acontecer e determinará qual caminho o país quer adotar no futuro.

Exame - Qual deveria ser esse caminho?
Zingales - Uma vez que tantas pessoas violam a lei, há duas formas de lidar com isso. Uma é encobrir a apuração de irregularidades — esse é o jeito Berlusconi. A outra é seguir adiante tendo como base um novo marco. Poderia haver algum tipo de anistia quando ocorresse voluntariamente a confissão de crimes.
Nos casos que envolvem funcionários públicos e políticos, é importante o afastamento do exercício do cargo.Seria uma tentativa de passar a limpo as irregularidades, por menores que sejam. Mas, depois disso, o processo deveria ser implacável. Deixar no passado o que aconteceu de errado não significa perdoar o que foi feito, mas também não pode ser uma forma de travar o futuro.

Exame - Quais países conseguiram fazer isso de forma democrática?
Zingales - No início do século 20, os Estados Unidos eram um país extremamente corrupto. Naquela época, o que fez a diferença foi uma combinação de fatores como a pressão por padrões morais mais altos, o Judiciário eficiente e um presidente como Franklin Roosevelt, que queria mudanças.
A imprensa teve papel importante ao longo do tempo. Obviamente ainda há corrupção nos Estados Unidos. Mais recentemente, o capitalismo americano tem sofrido com a proximidade excessiva entre o poder público e as grandes empresas.

Exame - Quanto maior o tamanho do Estado, maior é a chance de haver corrupção?
Zingales - A corrupção se propaga onde há burocracia. E não existe um ambiente em que mais se difunde a corrupção do que o trabalho que envolve funcionários públicos. É importante, no entanto, fazer a distinção entre promover o bem-estar social e o gasto público que apenas aumenta a participação do Estado na economia.
A Dinamarca e a Suécia, por exemplo, gastam muito com bem-estar social, mas não são países com grande número de funcionários públicos e não têm estatais gigantescas.
Meu conselho para o Estado no Brasil: caia fora das atividades industriais, mantenha um sistema que gere os benefícios sociais o mais automatizado possível e foque numa estrutura de administração pública enxuta e eficiente. Isso não se faz do dia para a noite. Leva tempo — talvez, uns 30 anos.

Exame - A interferência do Estado brasileiro na economia cresceu muito nos últimos anos. Qual deve ser o papel dos governos na economia?
Zingales - É preciso focar no básico, como dar educação de qualidade para as crianças, garantir que as leis sejam respeitadas e mandar para a cadeia quem comete um crime. Se o governo não consegue fazer o básico, como vai ser capaz de fazer direito uma política industrial?

Exame - O que o Brasil precisa fazer para voltar a crescer novamente?
Zingales - No Brasil, o termo capitalismo é percebido como algo ruim. Isso porque as pessoas experimentaram apenas o capitalismo corrupto. Para elas, a alternativa seria tentar desde uma forma mais branda de socialismo até uma versão mais agressiva, à la Chávez, na Venezuela.
O Brasil precisa de políticos com uma orientação pró-mercado, o que não é o mesmo que pró-empresas, o capitalismo de compadrio. Uma coisa é atuar em favor de algumas empresas. Outra é permitir que todas tenham as mesmas oportunidades de prosperar. Isso vai incentivar a inovação e tornar o país mais competitivo.

Exame - Corre no Congresso Nacional um pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Como o senhor avalia um possível afastamento da presidente?
Zingales - Um processo de impeachment é traumático, mas é importante para consolidar a democracia de um país, pois fica claro que ninguém está acima da lei — nem a presidente. É preciso haver elementos concretos para seu afastamento. Sendo assim, creio que vai ser positivo para o país.
Mas isso não significa que o jeito de fazer política terá mudado. O Brasil precisa desesperadamente de uma elite política comprometida com novos valores — e não agarrada à ideia de se manter no poder. O impeachment sozinho não muda as coisas. Se a saída de Dilma for apenas para favorecer X ou Y, não terá servido para nada.
 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A Rússia quer o Polo Norte



Rússia se aproxima do Polo Norte
© Sputnik/ Valery Melnikov
13:45 09.02.2016URL curta
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Nesta terça-feira (9), a Rússia irá apresentar à ONU o seu pedido renovado de ampliação das fronteiras sua da plataforma ártica no oceano Glacial Ártico. O pedido vem coroar uns 15 anos de pesquisa e grandes esperanças.










Quem vai apresentar o pedido é o próprio ministro dos Recursos Naturais e Meio Ambiente da Federação da Rússia, Sergei Donskoi. Na segunda-feira da semana em curso, ele tinha afirmado que Moscou não vê fatores que possam fazer as Nações Unidas rejeitar o pedido russo.

Contudo, o ministro não excluíu a possibilidade de um compromisso que poderia "aumentar ou reduzir" a área contida dentro das fronteiras futuras.

Em 2001, a Rússia apresentou o seu primeiro pedido correspondente, que visava obter reconhecimento internacional do direito russo sobre uma parte da plataforma continental que inclui a cordilheira de Lomonosov, a bacia dos Megulhadores (Podvodnikov) e a dorsal de Mendeleev, além de outros locais subaquáticos. Mas naquela altura, o pedido foi rejeitado por falta de provas científicas.

E começou um largo processo de obtenção dessas provas, que abrangia conferências e pesquisas científicas. Em meados de 2015, o ministro Donskoi anunciou a próxima apresentação do pedido.

Segundo as estimativas científicas, se o pedido for aceite pela ONU, isso significará, para a Rússia, um acréscimo de cerca de 1,2 milhões de quilômetros quadrados. Este território guarda 4,9 bilhões de toneladas de combustível. Cerca de 30% das reservas não exploradas de gás natural do planeta e 15% das de petróleo podem ficar no fundo desta zona do Ártico, reivindicada pela Rússia.

Outro item também caro à Rússia é a Rota Marítima do Norte, que também passa por estas alturas polares.

 © Sputnik/ Valery Melnikov
Povoado Dikson, situado na costa do mar de Kara

Devido ao tamanho do pedido e informações a serem examinadas pela comissão correspondente (composta por sete pessoas), vários especialistas estimam que o exame do mesmo pode demorar vários anos.

A comissão ampliada já recebeu 77 pedidos e analisou 22 deles. Esta comissão ampliada tem representantes da Argentina, Brasil, Camarões, Canadá, China, Coreia do Sul, Croácia, Dinamarca, Gana, Índia, Japão, Malásia, México, Moçambique, Paquistão, Polônia, Quênia e Trindade e Tobago.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Crianças sofrendo



Unicef alerta sobre estado de saúde de crianças refugiadas que cruzam a Europa




  • 19/01/2016 13h12
  • Genebra
Da Agência Lusa
O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) advertiu hoje (19) sobre o delicado estado de saúde das crianças refugiadas que cruzam a Europa, já que estão “esgotadas fisicamente, assustadas, angustiadas e, muitas vezes, precisando de cuidados de saúde”.

Segundo o Unicef, aumentaram as dificuldades da travessia e pioraram as condições físicas e de saúde dessas crianças com a chegada do inverno.

A falta de roupas adequadas para as temperaturas geladas no Leste da Europa e a escassez de alimentos apropriados para as crianças, juntamente com a falta de aquecimento em abrigos e transportes, agravam a situação. Atualmente, de acordo com dados da instituição, mais de um terço dos refugiados é menor de idade.



Segundo as autoridades locais, 37% dos refugiados que cruzaram a Macedônia em dezembro eram crianças, número que fica acima dos 23% registrados em setembro.

Na Sérvia, o índice de menores entre os refugiados era de 36% em dezembro, número também maior do que os 27% registrados em setembro. A maioria dos menores que se encontravam na Sérvia tinha idade entre 5 e 9 anos.

A situação das crianças refugiadas faz com que elas fiquem vulneráveis a infeções respiratórias, problemas digestivos e diarreia, como alertou em comunicado o coordenador especial do Unicef para os refugiados, Marie-Pierre Poirier.

No total, em 2015, entre mais de 1 milhão de refugiados que foram para a Europa pelo Mediterrâneo, 253.700, ou seja, um em cada quatro, eram crianças.

Edição: Juliana Andrade