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quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Médicos russos descartam veneno, e entorno de opositor de Putin acusa Governo de esconder provas


 Médicos russos descartam veneno, e entorno de opositor de Putin acusa Governo de esconder provas 

Aliados de Alexei Navalni dizem que equipe na Sibéria não permite transferência do líder oposicionista, em coma desde quinta, para hospital na Alemanha 

O líder oposicionista russo Alexei Navalni permanece em coma num hospital de Omsk, na Sibéria, apesar dos apelos da sua família para que seja levado a outro centro médico. Ele foi internado na quinta-feira após beber um chá supostamente envenenado. Pessoas próximas do ativista acusaram nesta sexta o Kremlin de impedir a saída de Navalni do hospital siberiano, apesar de uma UTI médica estar no aeroporto local à espera de poder levá-lo para uma clínica em Berlim. Os médicos russos, por sua vez, afirmam não ter encontrado “rastros de veneno” nos exames feitos no paciente, que “continua instável e não é transportável” neste momento, segundo o diretor-médico do hospital de Omsk, Alexandr Murakhovski. Ele acrescentou que foram encontrados traços de substâncias químicas industriais em seus dedos e em sua roupa e que ele recebeu o diagnóstico de uma doença metabólica causada por um baixo índice de açúcar no sangue. 

“Estão ocultando as provas [de seu envenenamento]”, denunciou a porta-voz do ativista, Kira Yarmysh, que acusa os médicos de Omsk de terem sido incapazes de determinar a substância com a que foi envenenado, e que apesar disso não permitem que seja transportado para a Alemanha. Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin, manifestou o desejo de rápida recuperação de Navalni e acrescentou que o Governo de Vladimir Putin não se opõe a que o político seja tratado no exterior —pois inclusive convidou os médicos alemães que aterrissaram nesta manhã em Omsk a participarem da equipe que o atende no hospital siberiano. E, por outro lado, a secretaria da Saúde da província de Omsk informou que os médicos estão consultando especialistas que chegaram de Moscou especialmente para cuidar desse caso e, depois de uma avaliação, decidirão se é possível transportar o paciente. 

Os partidários de Navalni e sua esposa Iulia —que na noite de quinta foi autorizada a entrar no quarto onde Navalni está conectado a um respirador— querem que ele seja tratado no exterior. Foi a fundação Cinema for Peace, do produtor cinematográfico e defensor de direitos humanos Jaka Bizilj, que enviou da Alemanha uma aeronave com UTI, que pousou por volta das 2h (hora de Brasília) no aeroporto do Omsk com a intenção de transportar o ativista para a clínica alemã Charité. 

Comissão Europeia (Poder Executivo da UE) pediu nesta sexta-feira a Moscou que permita rapidamente a transferência dele e uma investigação sobre o suposto envenenamento. “Esperamos uma investigação rápida, independente e transparente e, se os fatos forem confirmados, os responsáveis devem prestar contas”, declarou uma porta-voz da Comissão em uma entrevista coletiva. “Confiamos em que as autoridades russas cumprirão suas promessas de permitir que Navalni seja transferido de maneira segura e rápida ao exterior para receber tratamento médico de acordo com os desejos de sua família”, acrescentou a nota. Alemanha e França já tinham oferecido na quinta-feira “toda a ajuda médica” necessária. A chanceler (primeira-ministra) alemã, Angela Merkel, declarou-se “comovida”, e o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou estar “extremamente preocupado”. Ambos tinham pedido “clareza” e “transparência” sobre seu estado. “Naturalmente, é uma decisão política, não médica. A vida de Alexei corre um grande perigo”, sentenciou no Twitter o também opositor Leonid Volkov. 

Apesar dos resultados dos exames, Ivan Zhadov, porta-voz da Fundação Anticorrupção (FBK), a ONG fundada por Navalni, afirmou às portas do hospital de Omsk que os médicos do centro lhe tinham confirmado a presença de um veneno “perigoso para ele e para os que o cercam”, embora não tenha detalhado de qual substância se tratava. Segundo o porta-voz, o nome do veneno é secreto por ser parte da investigação. Zhadov pediu à comunidade internacional que pressione as autoridades russas para que permitam a transferência de Navalni. “Atrasar o transporte pode provocar danos irreparáveis à vida e a saúde dele”, sentenciou. 

O entorno de Navalni atribui o envenenamento a um chá que ele tomou em um aeroporto siberiano antes de embarcar, como parte de uma viagem de apoio a candidatos eleitorais nessa região. Uma passageira que estava no mesmo voo que Navalni relatou ao site 5-tv.ru que antes de perder os sentidos ele começou a gritar com voz transtornada. “Todos se assustaram muito, eu comecei a chorar e tive um ataque de pânico. Deram-lhe vários tapas no rosto, e o piloto anunciou sua decisão de aterrissar de emergência em Omsk”, relatou. Uma vez em terra, chegou uma brigada de médicos que levou Navalni inconsciente. A passageira acrescentou que, enquanto o avião era reabastecido, as pessoas a bordo começaram a discutir acaloradamente sobre o incidente, e alguns gritaram: “Estava drogado! É uma overdose!”. 

Os partidários de Navalni estão convencidos de que foi envenenado, assim como ocorreu quando esteve preso (embora os médicos penitenciários tenham dito que se tratava de uma alergia). Poderia ter consumido alguma substância psicodisléptica (alucinógena), segundo algumas fontes, e outras especificam que poderia ter sido com oxiburato de sódio, que em determinadas doses produz efeitos semelhantes à droga ecstasy, mas que pode ser perigosa se a dose for muito elevada, induzindo ao estado de coma. 

Enquanto isso, Serguei Boiko, que encabeça os partidários de Navalni em Novosibirsk, disse que durante a visita dele a essa cidade percebeu que estava sendo seguido. Navalni tinha viajado às cidades siberianas de Novosibirsk e Tomsk para participar de campanhas eleitorais de correligionários seus. O político é o líder mais carismático da oposição extraparlamentar, que tem desempenhado um papel-chave nas manifestações contra o atual regime depois de todas as eleições feitas na Rússia. Além disso, Navalni durante anos encabeçou o Fundo de Luta contra a Corrupção, que periodicamente revelava as fortunas e bens imobiliários de funcionários públicos russos. As autoridades russas incluíram em 2019 esse fundo na lista agentes externos, o que implicava uma série de limitações ao funcionamento da organização. Isto, somado a vários julgamentos em que é réu, levaram a Navalni a anunciar a liquidação do fundo em junho passado e sua intenção de criar um novo organismo para continuar seu trabalho. 


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

Putin anuncia aprovação de mais uma vacina contra covid-19

É a segunda vacina russa que recebe aprovação regulatória antes da conclusão de testes de larga escala de fase 3. Produto foi desenvolvido por antigo laboratório soviético na Sibéria.


Putin já havia anunciado uma vacina em agosto, que também pulou etapas antes da aprovação

A Rússia anunciou nesta quarta-feira (14/10) que concedeu aprovação regulatória para uma segunda vacina contra covid-19. O anúncio foi feito pelo próprio presidente Vladimir Putin, numa reunião de governo.

Putin parabenizou cientistas por aprovarem a nova vacina, que foi desenvolvida pelo Instituto Vector, da Sibéria, e passou pelos testes de estágio inicial em humanos no mês passado. Ela foi batizada de EpiVacCorona.

Na época soviética (1922-1991), o Instituto Vector mantinha laços próximos com o programa ultrassecreto de armas biológicas do antigo regime comunista. O Vector já havia anunciado, na semana passada, que havia completado os primeiros testes em 100 voluntários e afirmado que, depois de um período de 23 dias de monitoramento, nenhum dos voluntários manifestou efeitos colaterais graves.

"Precisamos aumentar a produção da primeira e da segunda vacina", disse Putin em comentários transmitidos pela televisão estatal. "Continuamos a cooperar com nossos parceiros estrangeiros e divulgaremos nossa vacina no exterior."


Ampolas da EpiVacCorona, a nova vacina russa

 Essa é a segunda vacina russa         contra  a covid-19 que recebe   aprovação regulatória sem seguir o   protocolo de testes previsto para   esse tipo de pesquisa.

 Em agosto, a Rússia se tornou o   primeiro país do mundo a conceder   aprovação regulatória a uma vacina   contra covid-19. A aprovação foi   concedida antes antes mesmo de   testes em larga escala de fase 3 terem sido finalizados. A pressa na aprovação e a falta de transparência nos dados levantou dúvidas sobre a eficácia e segurança da vacina entre cientistas do Ocidente.

Cerca de 400 pacientes de alto risco a receberam, de acordo com o Ministério da Saúde russo. A vacina, batizada de Sputnik 5, em homenagem ao primeiro satélite do mundo, lançado pela União Soviética, ainda não está em circulação geral.

Uma terceira vacina, desenvolvida pelo Centro Científico Federal Chumakov, de Moscou, pode ser registrada até dezembro, segundo autoridades russas. Os ensaios clínicos de fase 2 começam em 19 de outubro.

Desde o início da pandemia, a Rússia já registrou 1.332.824 infecções, o quarto maior número de casos no mundo, só atrás dos de Estados Unidos, Índia e Brasil. As autoridades russas contabilizaram cerca de 23 mil mortes em decorrência da covid-19.

 Noticias:  https://p.dw.com/p/3juQM

terça-feira, 4 de agosto de 2020

Dinamarca permite à Gazprom retomar a instalação do Nord Stream 2



O operador do Nord Stream 2 pode retomar a construção do oleoduto a partir de 4 de agosto, pois o Conselho Dinamarquês de Apelação de Energia não recebeu nenhum recurso contra a decisão da Agência Dinamarquesa de Energia (DEA), informou a RIA Novosti .

 

Conforme explicado, a rota do oleoduto a ser concluída corre fora da zona de risco de contato com armas químicas enterradas no fundo do mar Báltico. No entanto, sua construção não pôde ser retomada até 3 de agosto, quando expirou o prazo para recorrer da nova permissão da Dinamarca.

 

Como lembrete, o SP-2 prevê a construção de duas linhas de um gasoduto com uma capacidade total de 55 bilhões de metros cúbicos de gás por ano, desde a costa russa até o mar Báltico até a Alemanha. 

A construção do gasoduto  está programada para ser concluída  no final deste ano ou no início de 2021. 

 

Anteriormente, o Ministro da Economia e Energia, Peter Altmeier, disse que a Alemanha está pronta para iniciar negociações com os Estados Unidos a qualquer momento, a fim de evitar um agravamento da situação em torno do Nord Stream 2.


quinta-feira, 9 de julho de 2020

Retoma de equipamentos de diversão abrange apenas carrosséis

O Ministério da Economia esclareceu hoje que o diploma relativo à retoma das atividades de equipamentos de diversão publicado na quarta-feira abrange apenas os carrosséis, sem permitir a abertura de espaços como parques para crianças ou salões de festa.

Retoma de equipamentos de diversão abrange apenas carrosséis
Notícias ao Minuto

09/07/20 14:33


ECONOMIA 


"O

despacho n.º 7006-A/2020, de 08/07/2020, visa o levantamento da suspensão das atividades relativas aos equipamentos de diversão e similares, respeitando aos equipamentos usualmente designados 'carrosséis'", refere uma nota divulgada pela tutela, lembrando que devem ser cumpridas as obrigações do regime de licenciamento dos recintos itinerantes, tal como as normas técnicas e de segurança.

Assim sendo, acrescenta, "permanecem suspensas as atividades relativas aos salões de dança ou de festa, parques de diversões e parques recreativos e similares para crianças".

Todos estes espaços, a par da atividade de diversão itinerante (carrosséis), foram encerrados na sequência da pandemia de covid-19.

O diploma em causa, publicado na quarta-feira à noite em Diário da República e com entrada em vigor imediata, "autoriza o funcionamento dos equipamentos de diversão e similares mediante observância das regras sanitárias e de segurança aplicáveis", mas, segundo a nota do ministério liderado por Pedro Siza Vieira, apenas os carrosséis estão abrangidos.

O despacho refere que "é permitido o funcionamento de equipamentos de diversão e similares, desde que observem as orientações e instruções definidas pela Direção-Geral da Saúde, em parecer técnico especificamente elaborado para o efeito".

É também determinado que os carrosséis funcionem apenas em locais autorizados pelas autarquias territorialmente competentes, cumprindo o regime do licenciamento dos recintos itinerantes e improvisados, publicado em 2009, e sujeitos à fiscalização das entidades competentes.

A permissão de entrada em funcionamento da diversão itinerante não se aplica às áreas em que sejam declaradas as situações de calamidade e de contingência, pelo que, atualmente, não são permitidos equipamento do género nos 18 concelhos da Área Metropolitana de Lisboa.

O presidente da Associação Portuguesa de Empresas de Diversão (APED) congratulou-se hoje com a autorização dada pelo Governo, considerando que a medida peca por tardia, porque a época forte "já vai a meio".

Francisco Bernardo disse à Lusa que o setor aguarda agora que a Direção-Geral da Saúde (DGS) e o Ministério da Saúde disponibilizem um documento com as medidas de contingência.

O representante lembrou que este não é um setor como outro qualquer, em que o estabelecimento está devidamente instalado, a tutela autoriza e é só abrir portas.

"Temos de apresentar requerimento a determinado município a apresentar o nosso interesse, que depois será deferido ou não. Se for deferido é que procedemos à instalação. Com este processo passaram 10/15 dias, em alguns casos até mais, e entretanto já estamos a meio de julho [...]. Mas o que interessa é que está autorizado", sublinhou.

Sobre as autorizações que têm de ser dadas pelas autarquias, Francisco Bernardo adiantou que a APED tem alguns acordos com municípios que já vêm de anos anteriores.

"As autarquias têm estabelecido contacto e têm-se mostrado disponíveis a organizar algo que sirva de alternativa para que nós possamos instalar e explorar os equipamentos, mas isto ainda vai ser um processo demorado. Vamos ver se conseguimos agilizar o processo e que os municípios não burocratizem muito a situação", concluiu.

Em maio, a Assembleia da República aprovou um diploma que cria um regime de apoio à atividade dos feirantes. O documento foi entretanto aprovado na especialidade e aguarda promulgação.

Também a recém-criada Associação dos Profissionais Itinerantes Certificados (APIC), que organizou vários protestos a exigir a retoma da atividade, se congratulou hoje com a autorização do funcionamento dos equipamentos pelo Governo.

 


sexta-feira, 12 de junho de 2020

Reabertura repentina em Moscou

O coronavírus continua a se propagar na capital, mas a prefeitura relaxou surpreendentemente a maioria das restrições de isolamento e distanciamento social. Muitos russos veem nisso uma decisão politicamente motivada.


Russland: Buchfestival in Até poucas semanas, uso de máscaras faciais era obrigatório em Moscou(picture-alliance/dpa/A. Maishev)
Até poucas semanas atrás, uso de máscaras faciais era obrigatório em Moscou



Os 12 milhões de habitantes de Moscou respiraram aliviados, quando o prefeito Serguei Sobyanin anunciou o fim das medidas restritivas relacionadas ao novo coronavírus.

Coisas como ir ao cabeleireiro estão liberadas a partir de agora, outras como frequentar academias de ginástica serão permitidas dentro de alguns dias. Lojas de roupas e ferragens já estão abertas, de qualquer forma, há uma semana. Museus e zoológicos estarão novamente acessíveis dentro de uma semana, como também cafés e restaurantes.

Para a maioria dos observadores, a decisão mais importante do prefeito é a abolição imediata das autorizações eletrônicas para poder circular pela cidade. Por enquanto, tudo em ordem. Liberdade.

No entanto, muitos ficaram surpresos com a rapidez da mudança de curso. Ainda no final de maio, Sobyanin era da opinião que passeios pela cidade só poderiam ser permitidos se Moscou reportasse apenas dezenas ou no máximo centenas de novas infecções todos os dias. No entanto, com 1,5 mil a 2,5 mil novas infecções por dia apenas na capital russa, esse não é o caso há bastante tempo.

O deputado independente moscovita Denis Shenderovitch saudou a abolição do que ele chama de medidas "ilegais", que não se destinam, em sua opinião, a combater a pandemia da covid-19, mas sim a restringir os direitos civis. Com isso, ele está se referindo às estritas regras de autorização para sair de casa e do respectivo sistema de passes eletrônicos:

"Foram passos absolutamente estúpidos e inúteis que não causaram nada além de insatisfação entre a população", diz Shenderovitch à DW, apontando que "agora as pessoas podem ser felizes novamente."

De fato, nos últimos dois meses e meio, muitos moscovitas se queixaram do que consideram multas absurdas que teriam recebido da prefeitura por violações de medidas do isolamento social. Uma paciente acamada com uma doença grave foi multada em 4 mil rublos (o equivalente a cerca de 288 reais), embora ela não consiga deixar o apartamento há anos.

Os passes eletrônicos de alguns moscovitas foram subitamente declarados inválidos, embora nada tenha mudado em seu status. Muitos ainda se lembram da prisão temporária de um amante de animais, que foi atrás de seu carrocho enquanto passeava e ultrapassou a barreira de bloqueio num parque. Para muitos, essa história se tornou um símbolo do absurdo de algumas regras.

Denis Schenderowitch critica, por outro lado, o relaxamento de outras medidas que ele acredita que poderiam conter a pandemia: "No que diz respeito à liberação de eventos de massa, considero prematuro porque o número de novas infecções não diminuiu."

Por esse motivo, Shenderovitch chama a nova decisão de "estranha" e "histérica", lembrando que, há apenas alguns dias, os moscovitas usavam máscaras e luvas protetoras em espaços públicos e eram obrigados a passeios regulamentados "como numa prisão", de acordo com um plano estabelecido pela prefeitura para cada domicílio.

Shenderovitch cita o desfile do Dia da Vitória, que ocorrerá em 24 de junho na Praça Vermelha, como uma razão para tal decisão, depois que a parada foi cancelada devido à pandemia, no histórico dia 9 de maio (o dia oficial da vitória na Rússia). O prefeito Sobyanin deve ter recebido uma ligação do Kremlin, ironiza Shenderovitch: "Seriosha, pare! Primeiro, precisamos do desfile e, em segundo lugar e talvez o mais importante, precisamos da votação das mudanças constitucionais."

Em 1º de julho, será realizado um referendo onde os russos vão decidir se aprovam mudanças constitucionais. Entre outras coisas, a reforma visa garantir à reeleição do presidente Vladimir Putin após o término de seu mandato regular em 2024. O deputado moscovita Shenderovich critica "o caos e a indiferença" das autoridades frente aos cidadãos.

No entanto, Pavel Danilin, membro da Câmara Cívica de Moscou e diretor do Centro de Análise Política e Pesquisa Social, ligado ao Kremlin, diz que discorda da opinião do deputado Shenderovitch. Ele é responsável pela estatística oficial, segundo a qual o número de pacientes recuperados de covid-19 está aumentando.

Danilin também chama as restrições do governo, como passeios seguindo um cronograma, de "medidas inúteis" que "apenas causaram tensões na capital". E diz excluir qualquer motivação política: "Eu não aprovaria essa decisão nem diante do desfile nem diante da votação em torno da Constituição." Segundo Danilin, o prefeito havia consultado profissionais médicos suficientes antes de anunciar sua decisão.




quinta-feira, 30 de abril de 2020

Países da América Latina precisam gastar mais para enfrentar recessão


"Países da América Latina precisam gastar mais para enfrentar recessão"
No Brasil, o pacote emergencial anticoronavírus corresponde a cerca de 3% do PIB

Para minimizar os efeitos da crise do coronavírus, governos deveriam investir 5% do PIB em medidas para estimular economia, financiar saúde pública e apoiar os que perderam seus meios de subsistência, defende economista.


A crise econômica decorrente da pandemia de covid-19 será especialmente dolorosa para os países da América Latina, que entram nessa recessão fragilizados após meia década de baixo crescimento e alta na dívida pública.

Para minimizar os efeitos da crise, esses países deveriam ser mais ambiciosos e investir cerca de 5% do PIB em medidas para estimular a economia, financiar a saúde pública e apoiar os que perderam seus meios de subsistência – um patamar de gastos que, no continente, somente o Chile chega perto de alcançar; no Brasil, o pacote emergencial corresponde a cerca de 3% do PIB e, na Colômbia, 1,5%.

A análise é do economista José Antonio Ocampo, professor da Universidade Columbia, em Nova York, presidente do Comitê sobre Políticas de Desenvolvimento do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas e ex-ministro da Economia da Colômbia.

À DW Brasil, ele reconhece que os países latino-americanos têm um espaço fiscal limitado para agir, mas diz que agora "não é hora para austeridade" e que a meta de investir 5% do PIB em medidas emergenciais já é bastante inferior ao patamar adotado por países desenvolvidos para enfrentar a crise, de cerca de 10% do PIB.

Diante da atual escassez de financiamento privado internacional e das limitações de bancos multilaterais, Ocampo sugere que os países recorram ao endividamento doméstico, como a emissão de papéis do Tesouro de curto ou médio prazo, e apoia que os próprios bancos centrais comprem títulos da dívida, iniciativa que, no atual contexto, não traria risco de inflação, segundo ele.

Depois que a recessão for superada, porém, ele afirma que os países da América Latina terão que analisar como equilibrarão suas contas novamente. Além disso, deveriam "pensar seriamente em promover algum tipo de reindustrialização como estratégia de desenvolvimento" e "buscar uma integração regional mais ativa".


DW Brasil: Como o sr. avalia a reação de países da América Latina para enfrentar a crise econômica provocada pela pandemia?


As iniciativas dos bancos centrais para aumentar a liquidez [disponibilidade de dinheiro no mercado] foram mais completas do que as iniciativas fiscais [aumento de gastos do governo].

Porém, a reação fiscal é limitada pelo fato de que o espaço fiscal dos governos para atuar está limitado. E eles estão sob pressão das agências de classificação de risco, que estão reduzindo a nota de avaliação de países na América Latina. Essas agências estão jogando duro ao pedir que os países limitem seus gastos em vez de aumentá-los, que é o que é necessário fazer agora.

Agora não é a hora para austeridade. A demanda privada colapsou, não há investimento, e as pessoas não podem consumir. A única fonte de demanda são os gastos do setor público, e não é nem para promover uma expansão, mas apenas para evitar uma recessão ainda mais forte.


O valor dos pacotes de emergência anunciados na América Latina é adequado?


A maioria dos programas fiscais que vi são pequenos e deveriam ser ampliados. No caso da Colômbia, é de cerca de 1,5% do PIB. Diversos ex-ministros da economia [da Colômbia], incluindo eu, pediram algo em torno de 5% do PIB. O único país que está perto disso é o Chile [com 4,7% do PIB]. O Brasil é o segundo [com cerca de 3% do PIB].
 
Esse patamar de 5% do PIB já é bem abaixo do que vem sendo praticado por países desenvolvidos, que têm destinando o dobro disso, em torno de 10% do PIB. [Na Alemanha, as medidas de estímulo anunciadas consumirão cerca de 10% do PIB, nos Estados Unidos, 11%, e no Japão, 20%].


Como países latino-americanos devem financiar esses pacotes de emergência?


O financiamento privado internacional será uma opção muito limitada – ele praticamente colapsou, e as taxas de juros aumentaram.

Os bancos multilaterais de desenvolvimento estão oferencendo financiamento adicional. Mas teriam que elevar ainda mais o que já ofereceram. De qualquer forma, será uma fonte limitada.

Temos que pensar mais em financiamento doméstico. Uma forma, que é bastante ativa no Brasil, é usar papéis do Tesouro, de curto ou médio prazo, para financiar o aumento do déficit.

Mas não rejeito a possibilidade de os bancos centrais também os financiarem, por meio da compra de papéis do Tesouro, diretamente do governo ou no mercado secundário. No curto prazo, há uma demanda imensa por liquidez e por dinheiro dos bancos centrais, então não acho que esses programas provocariam pressão inflacionária.


Depois que a crise passar, há risco de que esse esforço emergencial faça a dívida pública sair do controle nesses países?


As economias latino-americanas enfrentam duas restrições, relacionadas a eventos que ocorreram antes da crise.

A primeira é que elas não cresceram com força nos últimos cinco anos. Houve uma meia década perdida. Desde 2014 o crescimento tem sido lento, e alguns países estiveram em recessão, como o Brasil.

A segunda são as condições fiscais. O déficit e a dívida do setor público no ano passado eram significativamente maiores do que os de 2008 [quando houve a crise financeira]. Então a capacidade de promover expansão fiscal para enfrentar a recessão é mais limitada agora do que era antes.

Após esta crise ser superada, a situação fiscal será mais grave, e o Brasil é um caso importante, pois já está com uma dívida alta. Os países terão que analisar como vão gerenciar o seu ajuste fiscal.


No que mais eles deverão pensar para estimular a economia após a crise?


Na minha opinião, eles devem pensar seriamente em promover algum tipo de reindustrialização como estratégia de desenvolvimento.

Além disso, como o comércio internacional será fraco adiante, os países da América Latina deveriam buscar uma integração regional mais ativa. Claro que isso não é fácil, há muitas diferenças políticas, mas há também diversas possibilidades para aprofundar o comércio regional e fortalecer cadeias de valor regionais.

 
Países da América Latina são, em regra, dependentes da exportação de commodities. Como isso os afeta neste momento?


O grande problema são as economias que dependem do petróleo e da mineração. Há uma guerra do petróleo em curso, e a Rússia está relutante em chegar a um acordo com a Arábia Saudita. Economias que exportam petróleo vão sofrer mais, como Venezuela, Colômbia e Equador.

Minérios também estão indo mal, porque o grande comprador é a China, e até que a China se recupere, a mineração terá dificuldade.
Mas não acho que as commodities agrícolas serão afetadas fortemente por esta crise. Poderá até haver alguma escassez delas.


Como o sr. avalia as medidas do Brasil para reduzir o impacto desta crise?


O Banco Central [brasileiro] adotou as políticas corretas, alinhado ao que a maioria dos bancos centrais pelo mundo tem feito.
 
O que acho interessante é a renda básica emergencial, que, no caso do Brasil, é facilitada por programas antigos de transferência condicional de dinheiro que o país implementou no passado. Creio que é uma excelente resposta, mas sei que ela é custosa, e o Brasil tem problemas fiscais desde antes da crise. O governo estava tentando fazer alguns ajustes fiscais importantes, e as condições fiscais ficarão piores. Mas esse é um ponto de interrogação para o futuro.

A recuperação do Brasil da recessão já estava fraca antes da crise do coronavírus. E, como em todos os países do mundo, essa crise terá um efeito negativo na economia brasileira. As estimativas mais confiáveis sobre o desempenho da economia que vi até o momento são as do Goldman Sachs, que colocam o Brasil numa situação intermediária – não tão ruim como Argentina, Equador e Venezuela, mas pior que Chile, Peru e Colômbia.


E a reação da Colômbia?


No geral, tem sido boa. O Banco Central foi bastante ambicioso para prover liquidez ao mercado, intervieram no mercado de câmbio e reduziram a taxa de juros. Mas a reação do governo foi menor que a necessária. Eles destinaram fundos ao setor de saúde e aumentaram as transferências para os 30% mais pobres da população. Mas faltaram políticas para a população vulnerável que não está entre os mais pobres – na Colômbia os trabalhadores informais e independentes representam 60% do total, e eles não receberam apoio.


Qual o papel dos organismos multilaterais neste momento?


Todos os bancos multilaterais já anunciaram novos programas de empréstimo, e autorizaram linhas de crédito existentes a serem usadas com outros objetivos. Como, por exemplo, usar uma linha de investimentos em educação para o setor da saúde.

A grande questão é se eles terão capital suficiente. Isso é particularmente importante para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), já que o Banco Mundial não é relativamente muito importante na América Latina.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) tem diversos desafios, mas já dobrou seus instrumentos de emergência, o que é bom. Porém há diversos outros instrumentos que eles precisam melhorar, como incluir mais países em sua linha flexível de crédito e criar um instrumento de swap. Eu e outros colegas propusemos a emissão de 500 bilhões de dólares em direitos especiais de saque, que tem o apoio da diretora do FMI [Kristalina Georgieva]. Saberemos na próxima semana se essa proposta será aceita.

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